segunda-feira, 26 de outubro de 2009
sorrir
nao e´ so
um gesto fisico
nao e´ so
limitarmo-nos a
sorrir e acenar
quando vemos alguem.
nao e´ so
sorrir como quem despacha.
E sorrir nao e´ so sorrir
Tambem e sorrir interiormente
Enfim, sorrir e´...
sorrir
Nao sei
Com um gesto
Aquilo que
Milhares de palavras
Nao exprimiriam
Com tanta clareza
Tento dizer
Com um milhao de palavras
Aquilo que um abraço
Diria sem rodeios
Porque escrevo, entao?
O Outono
Das arvores altivas
Caem folhas doiradas
Executam seu bailado
Ate, suavemente,
Cairam no chao molhado
Pelas gotas vindas do ceu
E ficam recebendo
Calorosamente
Os poucos raios de sol
Que passaram pelas nuvens
Para chegar ate elas
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Uma violeta que sonhava voar (historia)
Era uma vez um campo que tinha uma violeta. Era a única, de resto só mesmo rosas vermelhas. Mas essas gabavam-se da sua beleza, e gozavam-na pela sua timidez. Ela, lá bem no fundo, receava que a expulsassem de lá.
Às vezes, em dias de muito vento, encolhia-se toda e deixava as suas frágeis pétalas esvoaçarem e o seu néctar soltar-se, fazendo uma nuvem amarelada que fazia espirrar quem estava por perto. E envolvia-se no vento, sentindo-se mais fresca, um sentimento parecido com o planar de um pássaro. Sentia-se protegida, como se o vento fosse o diário do seu coração.
Depois, vinha o Sol que a envolvia nos seus raios luminosos e acolhedores, murmurando-lhe palavras doces que transmitiam confiança e vontade. Às vezes, vinha também chuva, e ela tinha um sentimento de frescura, paz e amor. Sentia o que ela raramente sentia, mas a fazia ficar feliz. A chuva era preciosa, e ela sabia-o. Adorava que a chuva lhe escorre-se na cara e nas pétalas, para depois ir para o caule e por sua vez para a raiz, essa raiz que a mantinha presa ao solo e retirava da terra a água e os Sais Minerais, que guardava para depois a planta fazer a sua comida (dei em Ciências da Natureza, às vezes dá jeito.)
A chuva era como uma mãe. Em pequena, os pais a deixaram só. Simples e claramente só, coisa que ninguém gosta. «Mais vale só que mal acompanhada», pensou a recém-nascida violeta. Mas quando ouviu risos de troça e intolerância para com a sua espécie, virou as costas (o caule) e começou a deixar as lágrimas salgadas escorrerem-lhe pelas pétalas macias até chegarem ao solo, agora transformado
À noite, a chuva contava estórias daquelas que só mesmo a chuva sabia e que são do tempo dos nossos trisavós, ou mais antigas, e a violeta adormecia. No dia seguinte acordava e sempre pensava que tudo não passava de um sonho. E, mesmo no momento em que uma imensidão de mágoa se aproximava, a chuva a consolava e a embalava, até a tristeza passar e a felicidade se apoderar dela. E todos os dias eram passados assim. Era o mais simples que havia, e muitas flores gozavam e diziam que ela tinha imaginação a mais. Mas ela sabia que quem goza, a maior parte das vezes é por cobiça. O quotidiano das outras flores não era melhor; gozar com ela. E, enquanto ela ouvia estórias, as outras gozavam-na pelas costas (pelo caule!) e pela frente. Mas, enquanto ela dormia, todas a admiravam e pensavam na sorte que ela tinha em ser diferente, não ser igual às outras. Mas não pensavam que ela era gozada e humilhada em frente de todas as outras, que não era tratada por igual, que era mal tratada e desprezada, e mais milhares de razões que eu não vou dizer por não ter tempo nem espaço.
Desde sempre ela estava só, só com a natureza, o tempo e a sua vontade. Tinha um único sonho; voar. Voar como um pássaro, que planando sobrevoa o céu. Que todos os dias voa sobre tudo e todos, num sentimento de paz e confiança. Voar como um pássaro, que todas as manhãs acorda e se sente mais perto do Sol que ninguém. Que para uma planta voar é praticamente impossível, ela sabe-o. Mas sempre que se lembra desta frase, ela nunca esquece o praticamente, e, embora não diga a ninguém, no fundo do seu coração ela ainda tem algumas esperanças.
Embora frágil, a pequena violeta era mais forte (por dentro) do que todas as outras flores do campo.
Nos tempos de seca, ela era a ultima a reclamar por água e também não era egoísta, pois deixava as outras beber a sua parte da água.
Nos tempos de fortes ventanias, ela deixava as outras escolherem os locais mais abrigados para ficar, e ela ficava no lugar menos abrigado e com mais vento.
Nos tempos de inundações, deixava as flores ocuparem os lugares mais secos, ficando ela encharcada.
Mas tudo isto sem uma única palavra amiga. Mas, felizmente, o vento compensava-a, assim como a chuva e o Sol, dizendo a toda a gente possível como ela era bondosa.
A frágil e delicada violeta não era daquelas pessoas que adoram a popularidade, e que querem ser famosas. Era simples e, como já vos disse, o sonho dela não era ser famosa, nem nada do género; ela apenas queria voar. Nem que fosse uma única vez; ela gostaria de voar e daria a sua vida por isso.
Num dia em que o Sol começava a levantar-se, e a madrugada chegava graciosamente, as coisas não correram bem para a pobre violeta.
O Sol acabara de mostrar o primeiro raio de Sol desse dia. O vento fazia a brisa matinal, mais suave do que nunca. Mas o ambiente piorou. O Sol escondeu-se. O vento soprou forte. A chuva caiu cada vez mais forte.
«São as consequências dos humanos inconscientes e ambiciosos! Isto vai de mal para pior…» costumava dizer a avô da violeta. Quando podia estar ao lado dela. Quando a podia consolar. Quando não estava longe. Muito longe. Quando não estava… no céu. Ao pensar nisso, a pobre violeta chorou, o resto do dia. Chorou todas as lágrimas que tinha para chorar. Ainda se lembrava do terrível dia em que aconteceu. Era um dia chuvoso, como este. Como ela estava feliz…até que aconteceu…um arrepio percorreu o caule da violeta. Antes amizade, agora desprezo. Amizade até ao dia… em que os familiares tinham sido arrastados pelo vento, sem maneira de escapar.
- Choramingas! Pareces um bebé… ups… tu és um bebé! – Disse a voz fria de uma rosa não-me-toques.
Esta era a parte do desprezo.
As rosas possuíam tudo para com ela, menos amizade e os seus derivados (e muitas outras coisas, só que aqui não cabe tudo.)
A violeta encolheu-se. Vinha aí uma tempestade.
Soou o primeiro trovão. A primeira gota de água caiu em terra.
Primeiro calmamente. Depois mais forte. Cada vez mais forte…
O vento soprou. Começava a ouvir-se um trovejar. Começou a aparecer o nevoeiro. Ficou cada vez mais denso.
A violeta não sabia para onde olhar. De todos os lados a tempestade a cercava. «É a primeira vez que vejo uma tempestade tão forte.» Pensou ela. E talvez fosse a última…
O mesmo acontecia com as outras flores. Todas as rosas procuravam apoio, mas não viam nada, tal era o nevoeiro. Pela primeira vez, as rosas sentiam o que sentira a violeta este tempo todo.
«Quando a tempestade passar, a primeira palavra que vou dizer à violeta é desculpa.» Era este o pensamento de todas as rosas. Mas era tarde de mais.
Agora que o desprezo se iria transformar em amizade, era a vez de a violeta ir ter com os seus familiares.
«Quem me dera que eles viessem ter comigo…» desejou a violeta. Mas foi ela que foi ter com eles.
Soprou um vento forte. O solo estremeceu. A raiz da violeta estava cada vez mais solta. E ela lutava com todas as suas forças para conseguir segurar-se, mas
Todas as rosas estavam arrependidas do que fizeram até aí. E bem que se podiam arrepender, mas de nada serviria.
O vento nesse dia estava descontrolado. Soprou. Mais uma vez. E mais outra. Por fim, cedeu de vez. A violeta deslizou, até chegar ao passeio de cimento molhado.
Todas as outras flores lamentaram o sucedido, mas nada podiam fazer.
Agora, era um campo só com rosas vermelhas formando um coração, como que prestando homenagem à violeta.
Mas, pelo menos, a nossa flor predilecta deixara amizade em ambos os sítios; no céu e na terra.
Eu podia acabar a história por aqui, mas a tempestade não acabara por isso eu também vou continuar.
O vento continuou, cada vez mais forte. O corpo da frágil violeta continuava estendido no chão.
Trovoada, chuva, vento, nesse dia tudo parecia atingir a violeta.
Começou a cair geada. Primeiro fina, depois mais grossa.
O corpo da pobre violeta já perdera a vida, mas não a esperança.
Vento. Mais vento. Uma brisa suave levantou a violeta. Mais alto. Cada vez mais alto, até uma altitude a que se possa considerar voar.
Sobrevoou montanhas, vales, matas, planícies e planaltos, bosques, florestas e jardins. Sobrevoou tudo o que se possa imaginar. Voou sobre sítios considerados inexistentes. Voou como pássaro que explora o mundo, como ave que gosta de sonhar…
Voou sobre todo o nosso planeta e parte de todos os outros, concretizando assim o seu último sonho.